Reflexões sobre a Páscoa

Temos vivido dias tristes, confusos, preocupados, corridos, e não percebermos os reais valores que nos acompanham. Enquanto adultos, vivemos momentos conturbados, em que sentimentos se misturam, e sempre nos vemos amargurados ou angustiados com algo. Precisamos constantemente resolver algo, repensar alguma coisa que aconteceu e acharmos culpados para o que não queremos enxergar e então, cobramo-nos pelas atitudes que tivemos e que não foram aceitas ou bem vistas pelos outros.


Fica ainda pior quando refletimos toda essa insegurança ou frustração pessoal em nossas crianças e adolescentes. Sem percebermos, fazemos com que eles mesmos se envolvam em nossos problemas ou que tenham reações inesperadas. Sem nos darmos conta da situação e do que tem causado tanto cansaço emocional em nós adultos, respondemos de forma grosseira para os filhos e produzimos neles uma imensidão de possibilidades negativas em reagir contra outros que venham incomodá-los. Dessa forma, não notamos, mas nossos adolescentes estão ficando sem paciência, sem refletir sobre suas ações e cansados da forma como eles mesmos se tratam. As relações entre eles têm se desgastado e percebo cada vez mais no ar uma resposta natural de "não estou nem aí para seus problemas". Afinal, para eles, seus problemas são sempre maiores e insolúveis.


Durante as orientações educacionais que faço numa tentativa de fazer com que percebam o outro, eles desabafam, dizendo "meu amigo foi grosseiro comigo" ou "não aguento mais a forma como falam comigo". Por mais que procure ponderar a situação e ouvir os dois lados nessa relação amigo com amigo ou amigo com colegas de classe, cada vez menos um deles consegue perceber que o outro também possui sentimentos, e nem sempre a verdade que ele proporciona é real. No ano passado, no dia 14 de abril, muitos adolescentes lançaram a ideia do "Dia do Abraço", fato que me chamou muito a atenção. Mesmo sabendo que o "Dia Internacional do Abraço" seja 22 de maio, acredito que necessitavam demonstrar sentimentos mais nobres, interessantes e afetivos. Visualizei um grande movimento de amigos que se abraçavam. Algumas tentativas de abraçar chamaram-me a atenção, pois não foram tão receptivas quanto esperadas, já algumas aproximações não eram bem-vindas.


Será que se todas as famílias preparassem seus filhos para serem mais receptivos, amorosos, respeitadores e humildes de coração, não teríamos tido resultados mais positivos? Talvez fossem mais espontâneos, e mesmo que alguns não quisessem participar desse movimento, teriam sido gentis ou delicados em dizer não. Por que participar das famosas "ovadas" é tão mais significativo e emocionante? Por que é mais interessante fazer com que seu colega sinta-se constrangido? O mais inaceitável acontece quando alguns pais auxiliam seus filhos a comprarem os ovos para que estes ajudem no constrangimento de outros. Com certeza pensam: "Se aconteceu com o meu, qual o problema?" Não está no momento de refletirmos juntos sobre atitudes simples, mas que fazem (ou farão) uma diferença marcante na vida de nossos adolescentes?


Será muito bom usarmos esse momento especial da Páscoa para termos um ótimo recomeço: pararmos por alguns instantes, nessa data tão festiva, tão marcante para muitas famílias - seja evangélica, católica, espírita ou qualquer outra concepção religiosa - por um momento de união familiar. Não importa o motivo dessa ação; nesse momento da Páscoa, quando são enaltecidos valores consumistas e financeiros, poderíamos desviar um pouco esse foco e procurarmos uma forma de agradecer a saúde que temos, a família a qual pertencemos, a força para trabalharmos e levantarmos todos os dias, as verdadeiras amizades que conquistamos e o amor que nos une.


Talvez alguns considerem "piegas" tais sentimentos e formas de agradecimento, mas tenho certeza de que fará uma diferença significativa para o adolescente que possuímos em casa. Daqui a alguns anos ele poderá nem se lembrar do chocolate que ganhou nessa data, muito menos das broncas que ele recebeu sobre as notas, nem os castigos que lhe foram aplicados, muito menos o "menu" que foi servido; mas certamente, lembrar-se-á com nitidez do momento em que seus responsáveis pediram, por um minuto, a palavra no almoço ou no jantar, para darem as mãos e agradecerem por estarem juntos e respeitando-se mutuamente. Será uma forma de fazermos com que nossos filhos cresçam num ambiente familiar mais sólido, amoroso e cheio de ações positivas sobre os outros.


No futuro dirão: "Lembro-me como se fosse hoje, que paramos, por um momento, demos as mãos e dissemos o quanto valia a pena fazer parte dessa família. Isso me ajudou a tornar-me um adulto melhor".


Feliz Páscoa!

Texto de Andréa Rosa
(pedagoga, psicopedagoga, especialista em gestão escolar, conferencista e consultora educacional).

 


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